segunda-feira, 26 de abril de 2010

Parágrafo

Do caderno fechado.

Não que ele soubesse. Mas para a mãe, fazer a arrumação anual nos armários e gavetas era mais do que abrir espaço em pastas, picotar contas pagas, livrar-se de canhotos de talões de cheque do ano inteiro. Tinha um quê de agricultura. Era como na infância dela, quando ela via o velho Carlos, seu pai, colher batatas e não entendia o entusiasmo dele com os sacos e tinas de coisas colhidas e frescas. Que se danassem as batatas. Ela gostava mesmo era do campo ceifado, do vazio promissor, do marrom-vermelho perfumado da terra recomeçada. Agora ela tentava forçar o mesmo olhar sobre o que acontecia, contornar a atual perda com uma manobra de expectativa. Fazer da falta entusiasmo. Mas fracassava. A morte do velho Carlos era apenas, e sem negociações, ausência.

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