quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Desligue o rádio e mantenha a calma

Cinco dicas para sobreviver à Era Michel Teló, por um agnóstico musical com 20 anos de experiência.

Então você viu a capa da Época falando que o Michel Teló é a quintessência do Brasil e finalmente sentiu o bafo frio da morte cerebral no seu cangote? Já não era sem tempo.
Se isso aconteceu de sopetão com você esta semana, eu tenho uma notícia boa e uma ruim. A ruim é que a revista tem razão: a musiquinha repulsiva que sai desse guri tem tudo a ver com o que se passa na cabeça da maioria das pessoas atualmente vivas no País.
A boa é que tudo vai ficar bem, e não há razão para pânico. Porque essa experiência pode ser nova e assustadora para você, mas é perfeitamente possível ser feliz cercado de músicas (e revistas semanais) que você considera ruins.
Eu sei o que estou dizendo. Tenho sobrevivido a onda após onda de conteúdo musical superestimado há pelo menos duas décadas. Na real, é bem possível que você considere genial muita coisa que eu desprezo. E tudo bem se você discorda de mim nesses itens específicos. Eu sou chato mesmo. Ainda assim você, que é novo na coisa, pode encontrar utilidade neste breve manual para os recém-desiludidos com a cultura popular. Relaxe e aproveite estas cinco pequenas regras que têm funcionado comigo desde Smells Like Teen Spirit (disse Fabiano, antes de ser atingido por uma vasta rajada de objetos contundentes).

1 – Faça o que manda o título.
Desligue o rádio. Vai, desliga esse aparelho do diabo. Desligou? Quebra o botão. Isso. Muito bem. Assegure-se de que ele parou de tocar. Para ter certeza, verifique se a nauseante linha de acordeão de Ai Se Eu Te Pego foi substituída pelo silêncio. Funcionou? Ótimo. Você está pronto para o Passo 2.


2 – Continue fazendo o que manda o título.
Exatamente: mantenha a calma. Você não precisa do rádio. Nem da TV. Nos últimos anos, você deve ter notado no bolso da sua calça o aparecimento de um intrigante aparelho capaz de enfiar todos os álbuns que você já quis numa lasquinha de silício do tamanho de uma caspa. Lembre-se dele quando bater aquela vontade de dizer "mas em tudo que é lugar que eu vou tá tocando essa m...". Ele será seu amigo daqui para a frente, porque tem a notável propriedade de tocar o que você quer ouvir, não o que querem que você ouça.


3 – Entenda que o mundo é assim.
É o tipo de notícia que ninguém gosta de dar, mas vamos lá: é verdade. Lembra, lá no começo, quando eu disse que o hitzinho tinha tudo a ver com o que a maioria das pessoas pensam? Pois é. Isso acontece porque, veja só, hits são feitos para agradar a essa maioria - e maiorias simplesmente não pensam nada de muito brilhante na maior parte do tempo. E eu juro, isso não é elitismo, nem arrogância. O mundo é isso aí, e está tudo sob controle, porque ele sempre foi assim. Não sei o que os vizinhos do Da Vinci faziam, mas aposto uma coca-cola que eles não pintavam, nem esculpiam, nem inventavam o helicóptero.


4 - Entenda que vai piorar.
E muito. O que vier a seguir vai fazer qualquer sertanejo universitário parecer uma tese de livre-docência sobre a obra de Karlheinz Stockhausen, pelo menos por um tempo. Porque é mesmo pior? Não, porque é igual. A música pop nunca foi um primor de originalidade estrutural, e você pode observar isso em muita coisa que você mesmo deixa no repeat.


5 - Pare de reclamar e vá ouvir outra coisa.
Se você não pensa que este é o melhor momento da História para ignorar lixo, doe seu cérebro para a indústria de sabão. Você tem rios de informação passando por você o dia inteiro e nunca vai ficar sem conhecer coisas boas, não importa do que você goste. Não é difícil. Experimente fazer isso quando você é um adolescente do começo dos anos 90 no interior do Rio Grande do Sul e o disco novo do seu guitarrista favorito só é lançado na Suécia.

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1 Comentários:

Blogger Luciano Schüler disse...

Esta ERA será mais valorizada quando se disser JÁ ERA...

12:48 PM  

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