quarta-feira, 14 de abril de 2010

Such Tweet Sorrow

O trágico amor de Romeu e @julietcap16.

A história todo mundo conhece: duas famílias que se odeiam, um romance proibido entre um casal de adolescentes cabeça-de-vento e suas consequências mortais. A tragédia Romeu e Julieta, escrita por William Shakespeare por volta de 1595, é um dos textos mais lembrados da literatura, e por um bom motivo: sua história foi contada e recontada durante séculos em milhares de releituras e adaptações.

A mais recente delas começou na última segunda-feira e vai durar cinco semanas. Chama-se Such Tweet Sorrow, e é uma curiosa ação de narrativa transmídia e RP digital da Royal Shakespeare Company. Desenvolvida em parceria com a produtora multiplataforma Mudlark, a ação consiste de uma adaptação da famosa história para um mundo e um meio onde ela nunca foi contada antes: as mídias sociais.

Cada um dos atores principais foi encarregado de cuidar do perfil de seu personagem no Twitter. É pela interação entre os perfis e pelos conteúdos que eles postam que a trama se desenrola, e seguindo os personagens e os links que eles publicam vemos a coisa acontecer em tempo real.

Such Tweet Sorrow se passa na Inglaterra, e não na Itália. Além disso, várias licenças poéticas foram tomadas. No original, além de ser de uma família inimiga, Romeu está ferrado porque o pai de Julieta quer mesmo é casá-la com um jovem rico chamado Páris. Isso não convenceria ninguém em 2010, e na adaptação Romeu vai conhecer Julieta quando ela e a família estão de mudança marcada para a Austrália. Personagens coadjuvantes também passaram por ajustes para ficarem mais plausíveis para o público atual: o primo Tebaldo e a ama de Julieta viraram irmãos dela.

O Romeu e Julieta tuiteiro não tem falas rebuscadas. Quase tudo é improvisado. Cada ator recebeu um roteiro aberto dizendo o que seu personagem precisa fazer, quando e com quem, a cada hora de cada dia - e o elenco segue esse mapa tuitando e postando o que der na telha. A encenação também não é fechada: os personagens interagem com os seguidores. Eu recebi um reply malcriado do Benvólio e estou sendo seguido por ele.

Eu não sou fã de adaptações que atualizam clássicos. Para mim, elas nunca são muito bem-sucedidas, nem criativa nem esteticamente. A versão para o cinema Romeo + Juliet, dirigida por Baz Luhrmann e estrelando Leonardo DiCaprio, por exemplo, me dói os rins só de pensar. Mas a encenação da RSC é tão experimental que acaba se candidatando a ser uma nova obra, paralela ao original e reverente a ele. Isso conta pontos. Ela não quer ser a versão definitiva de uma época. Ainda bem. Ela quer apenas ser uma brincadeira interessante e arejada - e consegue.

Bom para a RSC, que com isso encontra um novo modo de cumprir aquilo a que se propõe desde 1870 e poucos: manter o público contemporâneo conectado aos textos do Velho Bill.

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domingo, 9 de agosto de 2009

É o fim do mundo (not)


"Lança nas mãos. Heitor pontuda e grossa

Pedra arrancou da verga de uma porta,
Que ora nem dois forçudos camponeses
Poderiam mover, sem carreá-la:
Por Zeus aligeirada, ele a maneja,
Como simples tosão que em sua esquerda
Mal o ovelheiro sente
".

- Homero, "Ilíada" - canto XII


O ser humano nunca esteve tão perto da extinção. As guerras matam mais do que jamais mataram, e as doenças, a fome e o colapso econômico ameaçam a existência do planeta e a nossa própria. A cada dia mais, nós nos afastamos uns dos outros e substituímos o contato humano verdadeiro pela virtualidade fria, dando muito mais atenção à tecnologia do que aos nossos semelhantes. Isolamo-nos em casa, longe de tudo e todos, e passamos cada vez mais a experimentar o mundo apenas através da tela do computador.

Se você concorda com tudo o que eu disse no parágrafo acima, tenho ótimas notícias: nada disso está realmente acontecendo. É tudo mentira. Equívoco. Balela. Pode respirar feliz.

Há poucos dias, esse foi o teor da conversa que tive com um conhecido meu. Ele, um ludita convicto, se dizia muito pessimista com os rumos que a espécie e a sociedade estariam tomando em tempos de Twitter, Facebook e afins. Segundo ele (e, convenhamos, na opinião de muita, muita gente), as pessoas estão perdendo a habilidade de conviver pessoalmente, pois dedicam todo o seu tempo a estabelecer "relações virtuais", preferindo buscar a popularidade e a sensação de aceitação social dentro de ambientes on-line.

Toda vez que alguém me diz isso (e eu aposto que vocês também já ouviram), eu penso como deve estar difícil a vida para os donos de bares, restaurantes e casas noturnas. Afinal, essa situação deve ser uma catástrofe para os negócios dessa gente. Dá pra visualizar os bares, baladas e afins completamente esvaziados, falindo às pencas. Bairros como a Vila Madalena, em São Paulo, virados em perfeitas cidades-fantasmas.

Só que, bem, isso não ocorre. Não apenas os bares e restaurantes continuam com uma boa taxa de freqüência, mas o faturamento do setor está crescendo. Eles foram apontados, inclusive, como um dos setores que melhor resistiram à recente crise econômica, apresentando desempenho positivo enquanto empresários de outras áreas arrancavam os cabelos.

E não precisa acreditar em mim nem nos cadernos de economia. Basta sair numa sexta à noite para ver que a sociabilidade humana tête-à-tête está viva e passa muito bem. No caso específico de São Paulo, aliás, é possível ver o crescimento desse mercado a olho nu. Além das regiões já estabelecidas para a vida noturna, como a já mencionada Vila Madá, bairros que antes eram tradicionalmente decadentes, como a Rua Augusta, têm passado por um notável movimento de revitalização, em que casas antes fechadas dão lugar a novos barzinhos da moda.

Assim é com muitas dessas supostas verdades cínicas que andam por aí. A gripe suína preocupa e precisa da atenção das autoridades, mas ainda contagia e mata bem menos do que a AIDS e a malária. Ela provavelmente não vai acabar com a raça humana, assim como as guerras não vão. Afinal, elas matam menos hoje do que nos anos 40. Até mesmo a ameaça nuclear atual não se compara ao que era em 1962, durante a Crise dos Mísseis, quando EUA e URSS puseram o dedo no gatilho e sentiram coceira. Ali sim foi por muito pouco que o caldo não entornou de vez.

A raça humana não está, portanto, caminhando para a extinção. Muito pelo contrário. Somos seis bilhões e meio e contando. Por que, então, esse pessimismo todo faz tanto sucesso? Bem, eu não sei. Mas eu acredito que exista uma pista escondida nos versos da Ilíada que eu citei lá em cima. Neles, o guerreiro Heitor, com a ajuda de Zeus, ergue e arremessa uma pedra grande e pesada. E o poeta destaca que nos tempos atuais ela não poderia ser erguida nem por dois camponeses fortes. Os "tempos atuais", aqui, são os tempos de Homero: oitocentos anos antes de Cristo. E lá naquele tempo distante, quase três mil anos atrás, o cara já dizia, com todas as letras, que antigamente a coisa era melhor.

Então senta que o leão é manso. O mundo não está acabando, o contato humano não está diminuindo e, antes que você pergunte, não, não estou dizendo que as pessoas estão ficando mais burras ou acreditando em mais besteiras. Pelo que vimos até aqui dá até para concluir que algumas características humanas não mudam tanto assim, nem com o passar dos séculos. Acreditar que o fim está próximo em vários sentidos, por exemplo.

Talvez, com a internet, as comunidades digitais e blogs como este, essas bobagens apenas estejam tendo mais canais para serem divulgadas, mais ambientes para sobreviver. Mas isso também não é o fim do mundo. E é assunto pra outro dia.

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Foto: www.flickr.com/photos/smiller

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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Milionários e exponenciais

Duas notícias na semana que passou apontam para o crescimento e a "mainstreamação" de duas mídias sociais específicas. A primeira é plataforma de comunidades digitais Ning, que chegou nesta quinta-feira à marca de um milhão de redes sociais criadas por usuários do seu sistema.

O Ning é o mais recente empreendimento de Marc Andreessen, um veterano do Vale do Silício que ficou conhecido por ser um dos criadores do Mosaic, o primeiro navegador web, e por ter fundado a Netscape Communications nos anos 90. Quem usava o Netscape Navigator lá na alvorada da internet deve lembrar do sujeito. O cliente de e-mail do Netscape trazia, na primeira inicialização, uma mensagem de boas-vindas do próprio.

Ao atingir a marca da milionésima rede social, o Ning conta com uma base de mais de 22 milhões de usuários registrados, dos quais cerca de seis milhões são considerados ativos. Números assim perdem na comparação com outros, muito maiores, registrados por serviços como Facebook e Twitter. Mas é preciso lembrar que no começo do ano o Ning renunciou a 20% do seu tráfego quando decidiu banir sites criados com conteúdo pornográfico. De qualquer forma, Andreessen não deve perder seu sono com a concorrência desses dois sites; ele tem capital investido em ambos.

Os usuários do Ning têm a possibilidade de criar redes sociais inteiras, com comunidades próprias, galerias de fotos e vídeos, perfis de usuário e blogs, com layout e recursos customizáveis e ferramentas flexíveis de moderação e propagação. Meus colegas da AgênciaClick e eu temos trabalhado com o Ning desde 2007, quando migramos todo o site oficial da agência para essa plataforma. Na época, a ferramenta ainda nem aparecia no radar da maioria dos desenvolvedores, mas a experiência que adquirimos nos ajudou a usar a tecnologia Ning em projetos para clientes como Bradesco, Mapfre, Klabin e AACD, para a qual recentemente lançamos o primeiro site de uma entidade brasileira do Terceiro Setor a ser construído em torno de uma arquitetura de rede social.

Em matéria do CNET News, Gina Bianchini, CEO do Ning, atribuiu o crescimento do serviço ao fato de ele dar espaço à criação de redes sociais voltadas a temas estritos mas muito populares. Ela cita como exemplo o fan-site oficial da série de livrecos e filmecos Crepúsculo, que em apenas dois meses ganhou 94 mil participantes. "Acredito que ninguém atualmente esteja pensando em dar espaço para as paixões e interesses das pessoas," – disse Bianchini à reportagem – "nem pensando nas pessoas com base nas suas paixões e interesses do jeito que nós pensamos".

A segunda notícia fala sobre o Twitter, que no mês passado viu seu tráfego mais do que duplicar. Não sei exatamente por que razão, mas essa notícia circulou meio silenciosamente pela rede. Talvez porque o passarinho azul tem estado tão na boca do povo de uns poucos meses para cá que esse tipo de informação já não surpreenda muito.

Segundo informações divulgadas pela ComScore dia 15, o serviço de microblog registrou um aumento de 131% em seu tráfego só durante o mês de março. Os dados referem-se apenas ao tráfego produzido por usuários americanos, mas mesmo assim impressionam, especialmente porque a percepção do Twitter aqui no Brasil também tem indicado crescimento. Não tive conhecimento de nenhuma estatística equivelente para o Brasil. Mas, se houver, ele provavelmente deve ter registrado um crescimento considerável da massa twitteira a partir da recente edição da revista Época que trazia o Twitter como matéria de capa.

O Twitter é um exemplo de como certos fenômenos chegam a um ponto em que crescem exponencialmente, e de que a separação do on-e do off-line faz cada vez menos sentido. Talvez a inacreditável aceleração de seu crescimento nas últimas semanas esteja ganhando a ajuda de uma simples lógica circular (conhecida informalmente no Brasil como a lógica "Tostines"): ele está na pauta da mídia tradicional por que não pára de crescer – e cresce ainda mais por aparecer na mídia tradicional.

Update em 20/04: o Fantástico, aquele grande ativador da melancolia dominical para tantos de nós, é mais um recente e graúdo nome da mídia "clássica" a twittar, com o perfil @showdavida. Ah, você segue? Eu não.

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terça-feira, 11 de novembro de 2008

A última twitada da Phoenix

A sonda Mars Phoenix encerrou oficialmente na segunda-feira, dia 10 de novembro, sua missão no pólo norte de Marte.

Projetada pela Nasa e pela Universidade do Arizona para agüentar noventa dias sob as baixas temperaturas polares marcianas, a Phoenix agora congela de vez com a chegada do inverno no hemisfério norte do planeta. Antes disso, ela conseguiu a façanha de analisar o solo por mais de cinco meses, excedendo sua sobrevida prevista e fazendo descobertas históricas como a da existência de água e nutrientes semelhantes aos encontrados em algumas regiões desérticas da Terra.

Mas para o grande público, provavelmente, a lembrança que ficará da Phoenix é a da mais humana de todas as sondas marcianas. Com uma estratégia inédita de mídias sociais, a Phoenix ganhou uma legião de fãs em comunidades on-line de plataformas como Facebook e Twitter. Neste último, ela cativou a imaginação dos internautas ao ter as notícias de seus experimentos propagadas em primeira pessoa, trazendo uma dimensão de envolvimento à comunicação de resultados científicos.

De fato, ao que parece, o RP das missões não-tripuladas da Nasa nunca mais será o mesmo. Sondas mais antigas, como a Cassini, em Saturno, e os robôs marcianos Spirit e Opportunity agora também twitam. Até o Mars Science Lab, que ainda nem saiu da prancheta, já tem arroba. Bom para a Nasa, que está aprendendo a conquistar a opinião pública (e quem sabe mais uns dólares do orçamento americano) com ferramentas mais eficientes do que press-releases e soníferas coletivas de imprensa.

Na segunda-feira, com o anúncio do encerramento da missão e da "morte" eletrônica da Phoenix, a navezinha despediu-se com seu último suspiro na twitosfera. Em tom solene, ela disse:

- "01010100 01110010 01101001 01110101 01101101 01110000 01101000"

É a palavra "triunfo" em inglês, soletrada em código binário. Descanse em paz, @MarsPhoenix.

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